Foi só o tempo de travar a porta do banheiro, minhas pernas perderam a força e eu tombei. Tasquei o queixo na pia e meus dentes cortaram a ponta da minha língua. O impacto jogou minha cabeça para trás e eu bati primeiro o crânio, depois as costas na parede…


Otto Stupakoff. Medusa, 1985. Fotografia p&b. 58 x 47 cm

O som de trovão que saía de dentro dela a fez ir direto da consulta médica para a farmácia, que não era tão perto, nem ela tão rápida, sobre aqueles saltos agulha. Nas mãos de unhas roídas e sabugos feridos dobrava e desdobrava uma receita com os nomes de três…


Cabeça baixa, ele decide pegar o caminho da longa passarela a céu aberto que cruza quatro faixas de rolamento, seis duplas de trilhos e outras quatro faixas rodoviárias, chegando ao entorno do estádio. Caminha ao lado de Néti, que o observa, feliz de não ser notada, consciente de que o…


Os grandes problemas dão o contorno da vida, o arco geral. Os médios, o sentido do dia a dia. Os grandes interrompem, suspendem, impedem a respiração. Os médios fazem acordar dizendo “ai vida, puta merda” e dão logo uma tarefa a resolver. As tarefas fazem os dias. Dezesseis horas acordado pode ser muito sem um problema médio, ou quando todas as questões aplainam numa tediosa companhia. Tornam-se vizinhas ou familiares, tomam café contigo. Experimenta tirar tudo da frente para ver o que fica. Experimenta mesmo, diria o problema médio, ciente de sua posterior valorização. Médios problemas, incômodos que não paralisam, salvam do mesmo e do nada.


Chego na ponta do píer atraída pelo verde do mar, e o tempo inverte.

Instável inverno, me remexe e tremula como à superfície da água.

Ao vento, sou só poros, sinto.

Camada externa de um dentro que não vejo daqui.

Sou o chapisco do teto, disforme.

A ponta da onda, aguda.

Quebro.

E me formo de novo.

Esperando o momento de, enfim, ser espuma.


Só depois, à noitinha, com a maré baixa calminha, entendi que o mar sou eu.


Desligou aquele telefonema tão cheio de problemas e lembrou que não havia entrado no mar naquele dia. Só podia ser isso.

Havia decidido que seus dias seguiriam o ritmo das ondas, como quem decide se guiar por horóscopo, política ou religião.

Chegou na praia e viu o mar forte como…


Estamos imersos.
Alguns submersos.
Afogamento e Covid matam pelo pulmão.


Aprendeu, perdendo, que não sabia perder.
Com medo das perdas que viriam e que não se sabia quais, aprendeu, tentando, que perder não se aprende. E esperou.


O novo guru brasileiro

A Revista Piauí promove todos os meses o retumbante concurso literário Encaixe a frase. A do último certame foi “Ricardinho era o rei do pedaço; mandava soltar, mandava prender” e o ingrediente improvável, que também precisava estar no texto, era “Biotônico Fontoura”.

Aqui está o texto…

Juliana Colares

Roteirista e jornalista

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store