Meu sofrimento grita em mim

Foi só o tempo de travar a porta do banheiro, minhas pernas perderam a força e eu tombei. Tasquei o queixo na pia e meus dentes cortaram a ponta da minha língua. O impacto jogou minha cabeça para trás e eu bati primeiro o crânio, depois as costas na parede. Meu pé direito virou de lado sem mais poder com meu corpo que desabava com um peso que parecia multiplicado por três, meus braços subiram como se fossem feitos de qualquer coisa inorgânica e mole, sem ação nem vontade, e eu finalmente atingi o chão. Não senti dor. Fui arrebatada por outro movimento involuntário, dessa vez do ventre que contraiu para expulsar algo que havia guardado no ponto mais escondido e escuro de mim, e que já não podia mais. Meu corpo quebrou o silêncio, sentindo que era hora passada e vencida. Me veio como uma bolha, uma onda, uma vibração que me apertou as costelas, desencostou da parede, abriu minha garganta, levantou meu queixo e, como se só agora me chegasse ao pensamento o significado dessa violenta coreografia, abri a boca e gritei, arrancando-me para fora de mim. Gritei, gritei, gri-tei sem som algum. O grito mais forte que meu corpo já foi capaz de emitir. O grito sepultado há dez anos saiu dentro do banheiro daquele avião e eu o proibi de ser ouvido, tão meu e só meu que não o deixei ser compartilhado com estranhos. E quando a última chama de tudo aquilo que me saía se extinguiu, apaguei junto com ele. Acordei com batidas na porta e uma brancura de morte no peito, do tamanho e nos mesmos contornos de quando perdi meu bebê, meu arco-íris, dez anos antes. Mais batidas na porta e percebi que precisava responder, tentei dizer “já vai”, me engasguei com o sangue da língua mordida e tossi. Enquanto apoiava as mãos sobre a pia e tentava me levantar com forças que não existiam naquele meu corpo moribundo, ouvi comentarem do lado de fora “alguém deve estar passando mal”, consegui erguer parte do tronco, tentei firmar os pés e percebendo que não poderia contar com o direito, “está tudo bem?”, apoiei o esquerdo, elevei a cabeça acima da altura da pia e consegui cuspir o sangue a tempo de dizer “um minuto”, voltei a sentir dedos, músculos, tendões e, com diligência, me pus de pé. Um caco. Olhei no espelho e me vi fendida. A força que achei que tive nesses dez anos era outra coisa que não tento dar nome por respeito ao que não pude suportar. Batidas na porta e minha cabeça debaixo da água corrente para sentir como é um rosto lavado por lágrimas, não lembrava. Viriam, mas ainda não.

  • Escrito durante a oficina de criação literária “Então eu grito”, de Veronica Stigger

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Roteirista e jornalista

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