Desligou aquele telefonema tão cheio de problemas e lembrou que não havia entrado no mar naquele dia. Só podia ser isso.

Havia decidido que seus dias seguiriam o ritmo das ondas, como quem decide se guiar por horóscopo, política ou religião.

Chegou na praia e viu o mar forte como não havia visto antes. Tentou entrar como sempre o fez e percebeu que o de sempre não cabia.

Logo na primeira pancada, ficou sem a areia que havia sob os pés.

Recuou e observou.

Olhou tempo suficiente para entender o ritmo das ondas. Para perceber até que ponto precisaria entrar para que as mais altas não quebrassem bem em cima dela e a derrubassem.

Viu que precisava dobrar os joelhos uma, outra e mais uma vez para deixar passar sem ser desestabilizada. Quanto mais fundo, mais em si e mais segura.

Entendeu rapidamente que boiar seria impossível, não havia brechas para superfícies. E que era preciso ficar muito atenta para decidir quando manter os pés firmes ou quando dobrar os joelhos.

Rebolar também é uma questão de joelhos.

Mas também viu que não precisava bancar a forte, podia optar pelo aconchego de um mergulho tapando o nariz. O importante era ir fundo.

(achava que a vida era sobre o viver dos dias. sobre cada onda e cada espuma, não sobre um ponto onde chegar)

Roteirista e jornalista

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