Memes, medos e leite condensado

Recebi de duas amigas o mesmo meme, num grupo de whatsapp que tem três pessoas. Metade do meme era a reclamação das “pessoas sem filhos”: “ai, tô muito preocupada com essa quarentena! como ficar em casa só vendo netflix, internet e dormindo? vou pirar…”. Na outra, a imagem das “pessoas com filhos”: uma mulher arrodeada de crianças e cara de puta que pariu.

Quis responder: “exatamente essa a minha preocupação, não sei se durmo ou vejo netflix, ainda bem que não tenho filhos”. Elas sabem, obviamente, que eu perdi dois bebês, tento engravidar há dois anos e quando finalmente decidi tentar inseminação artificial, veio o conora e o resto é reticências. Mas não disse nada, óbvio. É claro que eu entendo que elas estavam apenas compartilhando um sentimento em comum, que a minha história não invalida nem diminui a delas, que elas precisam ter espaço pra existirem dentro do nosso grupo, que jamais houve qualquer intenção de me incomodar e que, infelizmente, o mundo não gira ao meu redor. Mas a ranzinzice é minha e eu faço o que quiser com ela.

Se antes do corona eu já tinha uma relação de ódio e dependência com as redes sociais, preciso entender como sobreviver a elas agora. No instagram, me parece que está todo mundo criando e compartilhando sua forma de sobreviver ao isolamento, o que é ótimo. Pra elas. Eu sigo revirando meus olhos aqui e ali. Se achar o que eu disse um absurdo ou uma afronta à sua própria felicidade, pode voltar pro seu feed, não tô aqui pra servir ninguém. Pronto, estou um pouco mais feliz agora.

Venho lendo bastante sobre luto pra um filme que estou escrevendo. Não sei se está sendo lá muito saudável, mas tendo a crer que apesar do que pode parecer, não tem me deixado mais pessimista e ranzinza do que o habitual. Acho que aos 36 anos e uns três (seriam quatro?) de análise, estabilizei essas características em minha personalidade e tenho apego a elas. Mas sim, tenho pensado muito sobre luto.

Ao contrário do meme que recebi, eu, pessoa sem filhos, tenho dormido menos e visto menos netflix. Tenho lido muito sobre o corona. Tenho tido muito medo do futuro. Medo de nos tornarmos um país enlutado. Medo dos meus pais morrerem. Os dois têm mais de 60 anos e nenhum mora no mesmo estado que eu, nem na mesma região. Meu irmão mora em outro país. Medo de não poder nem ir ao enterro. Não faço a menor ideia do que fazer com essa sensação. A não ser tentar não pensar nisso e me esforçar pra de fato viver um dia de cada vez, talvez a tarefa mais difícil, especialmente nesses tempos mórbidos. Escrevo pra tentar tirar o medo de dentro de mim. Não se preocupem, continuo fazendo análise. Aviso pra que não me venham com palavras que não me dizem nada. E porque sei que a sociedade ocidental contemporânea tem dificuldade de lidar com determinadas emoções.

No meu filme, o pai da protagonista morre. É o cerne da história. E eu também não sei o que fazer com isso. Só sei que não posso deixar de escrever meu roteiro. É meu. É o que tenho pra agora. Mas fica tudo meio entulhado no peito.

Enquanto espero os próximos dias, leio, escrevo, faço alguma atividade física e como bastante leite condensado gelado porque se o mundo acabar amanhã, a última coisa que eu quero ter feito é tomado uma xícara inteira. Mentira. Minha única preocupação é como ficar em casa vendo netflix, internet e dormindo.

Roteirista e jornalista

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