Pontos de vista discordantes

Meu olhar sobre o mundo parte de dois pontos de vista distintos. O do olho esquerdo e o do olho direito. Estrábica desde criança, gosto de pensar que tenho maior propensão à convivência dos diferentes. Mentira.

O direito é o mais turrão. Vê o mundo a partir do prisma da normalidade e é incapaz de enxergar a vida como o seu par. O esquerdo até consegue exercitar a empatia e se colocar no lugar do outro, guardadas as devidas restrições anatômicas. Mas desde criança, sempre foi mais à esquerda e mais para cima. Causou problemas, claro, como qualquer um que ousa ser diferente. Me fez andar com a cabeça de lado para evitar perdê-lo — o cérebro, ainda que muito esperto, tem dificuldade de lidar com pontos de vista dissonantes concomitantes — e me presenteou com apelidos que eu dispensaria, se tivesse tido poder de escolha.

Por causa do esquerdo, passei por três cirurgias. A última, traumática. Por um erro de cálculo, fiquei com uma torção ocular e a convivência entre esquerdo e direito se tornou impossível. No dia seguinte à operação, quando tirei o tampão, o olho esquerdo estava vendo tudo na diagonal. Mas não era levemente, não. Fiquei com dois horizontes, sendo que o esquerdo era uma hipotenusa. Pego de surpresa, meu cérebro via duas imagens simultâneas que, lado a lado, transformavam meu mundo em algo aterrorizante.

Sobrou para o cérebro juntar tudo, o máximo que conseguisse. E ele o fez. A verdade é que, descobri empiricamente, meu cérebro tinha zero paciência para filosofias oculares. Perguntas do tipo “e se o horizonte não estiver onde se convencionou que deveria estar?” ou “e se uma mesma pessoa puder ter dois horizontes não paralelos e igualmente verdadeiros?” eram rapidamente refutadas por ele, que me respondia com dor de cabeça, choques contra a parede (que, devido às divagações dos meus olhos, eu nunca sabia onde estava) ou ameaças de tropeções no meio-fio e risco de atropelamento (afinal, qual o carro verdadeiro?). Uma imposição demasiado severa da materialidade do mundo, eu diria.

Incapaz de lidar com realidades discordantes, meu cérebro tentou ao máximo reduzir tudo a um denominador comum ou ao que poderia ser chamado de uma convivência pacífica. Aceitei em defesa da minha integridade física, como quem atende à sugestão de renúncia por parte do Exército.

Resistente, o esquerdo não se dobrou totalmente aos desmandos de um cérebro controlado por um olho direito “normal” e dominante e se manteve, ainda hoje, oito anos após a fatídica cirurgia, na diagonal, à esquerda e para cima. Nunca assumiu o comando. Mas me mostra seu mundo enviesado a um simples piscar do olho direito. O mundo, na verdade, é o mesmo. Muda o ponto de vista. E muda tudo.

Em breve, o olho esquerdo passará por mais uma cirurgia. Desta vez, para corrigir a torção infligida a ele na última intervenção médica. É uma tentativa de retorno ao eixo original. Não há “cura” para sua discordância à “normalidade”. Sempre será mais à esquerda e para cima. E quanto mais o tempo passar, ficará ainda mais à esquerda e para cima. Sempre avesso ao direito.

Image for post
Image for post
Desenho criado e tatuado por Lis Mainá, a @tatudona. A sortuda que o carrega na pele é @tetecesar14. Cheguei tarde. Quando vi, já era de outra.

Roteirista e jornalista

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store